É comum encontrarmos nas redes sociais pessoas dizendo que são “viciadas em pornografia”. Também é frequente encontrar afirmações de que esse vício simplesmente não existe. 

A questão é mais complexa, “vício em pornografia” não é o nome de um diagnóstico oficial. Isso, porém, não significa que pessoas não possam desenvolver uma relação problemática ou compulsiva com a pornografia.

A Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde, reconhece o Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo (TCSC). Esse transtorno pode envolver diferentes comportamentos sexuais repetitivos, inclusive o uso de pornografia.

O diagnóstico não é definido pela quantidade de pornografia consumida, mas principalmente pela dificuldade persistente de controlar o comportamento, pela continuidade apesar de consequências negativas e pelos prejuízos ou sofrimento clinicamente significativos associados a ele.

Assistir pornografia significa ter um problema?

Não. Consumir pornografia, mesmo com frequência, não significa automaticamente que exista um transtorno. Uma pessoa pode consumir pornografia regularmente e não apresentar perda de controle, prejuízos nos relacionamentos, no trabalho, nos estudos ou em outras áreas importantes da vida.

Por outro lado, alguém pode perceber que está tentando reduzir o comportamento repetidamente, mas não consegue ou que continua consumindo pornografia apesar das consequências negativas. Por isso, a frequência isoladamente não é suficiente para determinar se existe um problema.

E quando existe culpa ou vergonha?

Esse é um aspecto muito importante da avaliação. Algumas pessoas podem sentir culpa ou vergonha por consumir pornografia devido aos seus valores pessoais, religiosos, culturais ou familiares.

No entanto, o sofrimento é real e merece ser acolhido, mas ele não significa necessariamente que exista um transtorno. A CID-11 estabelece que o sofrimento decorrente exclusivamente de julgamentos morais ou da desaprovação em relação aos próprios desejos e comportamentos sexuais não é suficiente para diagnosticar Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo.

Por isso, o profissional irá avaliar e diferenciar a  perda de controle e os prejuízos reais de um sofrimento que esteja relacionado principalmente ao conflito entre o comportamento e os valores da pessoa.

Por que algumas pessoas procuram pornografia quando estão mal?

O comportamento sexual pode, em algumas situações, estar relacionado à tentativa de lidar com emoções desagradáveis. O estresse, a solidão, o tédio, a ansiedade, a frustração ou a tristeza podem levar algumas pessoas a buscar atividades que proporcionem alívio ou prazer imediato.

Isso não significa, entretanto, que utilizar pornografia para lidar com uma emoção seja automaticamente um sinal de vício ou transtorno. O importante é compreender qual função o comportamento desempenha, se a pessoa consegue escolher quando utilizá-lo e se existem consequências negativas importantes.

Pornografia pode ser uma forma de educação sexual?

Para muitos jovens, a pornografia acaba sendo uma das fontes de informação sobre sexo. O problema é que o objetivo da pornografia não é educação sexual. Ela é produzida principalmente para entretenimento e pode apresentar corpos, relações, práticas e expectativas que não correspondem à realidade dos relacionamentos.

Sem outras fontes de informação, isso pode contribuir para expectativas irreais sobre aparência, desempenho sexual, consentimento e relacionamentos. Por isso, educação sexual baseada em informação confiável é fundamental.

Também é importante evitar o extremo oposto como afirmar que toda pessoa que assiste pornografia terá problemas sexuais ou relacionais. As pesquisas nessa área são complexas, e associação não significa necessariamente causalidade.

Como saber se existe um problema?

Uma avaliação profissional deve considerar a história e o contexto de cada pessoa. Algumas perguntas importantes são:

  • Você consegue controlar o comportamento?
  • Já tentou reduzir ou interromper e não conseguiu?
  • Continua consumindo mesmo diante de consequências negativas?
  • O comportamento está prejudicando seus relacionamentos, trabalho, estudos ou sono?
  • A pornografia ocupa um espaço desproporcional na sua rotina?
  • Existe sofrimento clinicamente significativo?
  • Esse sofrimento está relacionado à perda de controle e às consequências do comportamento ou principalmente à culpa e aos seus valores pessoais?

Essas perguntas ajudam a evitar dois erros: patologizar um comportamento sexual que não é necessariamente problemático ou minimizar uma situação em que realmente existe perda de controle e prejuízo significativo.

Como a psicoterapia pode ajudar?

A psicoterapia oferece um espaço seguro e livre de julgamentos morais. O objetivo não é punir ou simplesmente determinar se uma pessoa pode ou não pode consumir pornografia.

O trabalho terapêutico pode ajudar a compreender a relação da pessoa com a sexualidade, identificar padrões de comportamento, investigar possíveis gatilhos, desenvolver estratégias de regulação emocional e trabalhar os prejuízos que estejam acontecendo.

Quando existe um comportamento compulsivo, o tratamento também pode ajudar a pessoa a recuperar maior capacidade de escolha e controle sobre suas ações. O mais importante é que a avaliação seja individualizada e baseada em evidências científicas.

Afinal, existe ou não existe “vício em pornografia”?

A resposta mais correta é: depende do que estamos chamando de “vício”.

“Vício em pornografia” é uma expressão popular e não o nome de um diagnóstico específico. Porém, isso não significa que o sofrimento ou a perda de controle não existam. Algumas pessoas apresentam padrões compulsivos de comportamento sexual que podem incluir o uso de pornografia e que merecem avaliação e tratamento. Da mesma forma, consumir pornografia com frequência não significa automaticamente ter um transtorno.

Nem todo consumo é problemático, mas um comportamento que foge ao controle e provoca prejuízos importantes não deve ser ignorado.

Se a sua relação com pornografia, telas ou outros conteúdos digitais está afetando sua rotina, seu sono, seus relacionamentos ou seu bem-estar, buscar ajuda profissional pode ser um passo importante.

No meu consultório, o atendimento é realizado de forma individualizada, acolhedora e sem julgamentos, buscando compreender o comportamento, seus possíveis gatilhos e os impactos que ele pode estar causando na vida do paciente.

Cuidar da saúde mental não significa demonizar a sexualidade. Significa compreender quando um comportamento está causando sofrimento ou prejuízos e buscar formas mais saudáveis de lidar com ele.

Se você quiser saber como funcionam as sessões, entre em contato e vamos conversar.